Indústria mineira de publicidade: qual futuro?

Indústria mineira de publicidade: qual futuro?

Por José Osvaldo Lasmar.

Nos anos 80, a Fundação João Pinheiro foi pioneira na elaboração de pesquisas que trataram de  conceituar  e dimensionar as indústrias culturais no Brasil.  Demandada por Celso Furtado,  então Ministro  da Cultura, por órgãos públicos e entidades de classe, os primeiros diagnósticos do nosso  “PIB cultural”, as primeiras formulações de matriz de insumo-produto aplicadas à produção cultural, as primeiras análises econômicas das nossas indústrias cinematográfica, editorial e gráfica  foram então elaborados.

Desde final do século passado, ao passo que economias centrais intensificaram seus processos de terceirização a partir de um novo ciclo tecnológico, a fronteira conceitual da economia da cultura  pode ser  ultrapassada.  A partir da incorporação  do  conceito de  inovação como motor de um novo padrão de crescimento, uma nova  pauta de ações articuladas em torno das indústrias criativas, apesar de sua fluidez conceitual,  permitiu a abertura  de uma nova frente  de pesquisa e formulação de novas políticas de desenvolvimento.  Estamos tratando agora não mais de economia da cultura apenas mas de um terciário ainda mais amplo e dinâmico, a  economia criativa.

Nas décadas de 80 e 90  não nos caberia , sob qualquer  ponto de vista metodológico  ou prático,  contemplar  a indústria de publicidade como objeto de  nossas políticas voltadas para a economia da cultura.  Tratávamos então de dimensionar a produção cultural – seu potencial gerador de emprego, de renda, seus gargalos,  sua base produtiva, suas inserções internacionais – pensada a partir dos movimentos de massificação da cultura.

Nas duas primeiras décadas deste  século, no entanto, ignorar as indústrias de publicidade, propaganda e marketing,  na definição de novas  estratégias de desenvolvimento da nossa economia criativa  seria excluir um dos maiores e mais dinâmicos complexos de atividades inovadoras das economias contemporâneas.

Seja por movimentar  um verdadeiro  “hub” de  setores, práticas e atividades que configuram nossa economia da cultura, das artes cênicas, artes plásticas, design ao audiovisual. Seja por se vincular cada vez mais e mais rápido  a  plataformas de produção mais intensivas em tecnologia, a indústria de publicidade exige urgente e articulado esforço de análise e proposição de novas políticas de desenvolvimento.

Estamos, produtores de publicidade, formadores de recursos humanos para publicidade, formuladores de políticas públicas de desenvolvimento, uma vez mais desafiados a compreender as  novas cadeias produtivas  envolvidas na indústria de publicidade, o impacto das novas tecnologias digitais no seu modo de produção e na diversificação seus produtos, seus novos veículos e modos de distribuição.

Em Minas nosso desafio é certamente ainda maior que aquele posto para os setores privado e público envolvidos nessa mesma agenda de desenvolvimento no eixo Rio-São Paulo. Até aqui, a publicidade mineira, apesar do seu enorme e comprovado talento, tem sido marcada, ou perseguida, por crenças cuja validade, ainda que poucos percebam, está datada pelo novo ciclo tecnológico do capitalismo terceirizado. Dentre elas a conclusão, pretensamente axiomática, de que um estado que não desenvolveu sua indústria de bens de consumo duráveis em grande escala não pode pretender um desenvolvimento consistente e vigoroso da sua indústria de publicidade. Constrangidos, ou acomodados, por esta crença, condena-se nossa indústria de publicidade a uma arriscada e nefasta  estratégia de sobrevivência baseada na dependência do setor público como seu principal demandante.

Certamente não é esse o cenário que produtores e  atores integrantes das cadeias produtivas da publicidade queremos validar como futuro da nossa indústria de publicidade.  Mas se não é esse o futuro que queremos estamos desafiados a definir, juntos, qual futuro será .

José Osvaldo Lasmar
Ex diretor da Fundação João Pinheiro

Fonte: Jornal O Tempo, Belo Horizonte, 6 de novembro 2019