ATAQUE DA BOMBRIL NÃO É APENAS AO CABELO, MAS AO QUE ELE REPRESENTA

ATAQUE DA BOMBRIL NÃO É APENAS AO CABELO, MAS AO QUE ELE REPRESENTA

Há símbolos que marcam a nossa vida, seja por escolha, acaso ou imposição, tanto de um jeito positivo como negativo. Para se fazer presente, o racismo se utiliza de símbolos e códigos e atinge seus alvos em cheio, deixando marcas eternas. Quando uma empresa como a Bombril mantém uma palha de aço em seu catálogo – “há quase 70 anos” – com o mesmo nome, Krespinha, confirmamos algo que não é novidade para nós: o topo da pirâmide não mudou. Pessoas brancas e ricas, que não por coincidência ainda detém o poder de grandes empresas e instituições, seguem alimentando a estrutura opressora que nos mata em segundos ou em doses homeopáticas durante a vida.

Nos anos 1950, o produto acabava de chegar em São Paulo, tempos depois de ter sido lançado no Rio de Janeiro. “No Rio, todos me conhecem. Sou Krespinha – a melhor esponja para a limpeza da cozinha. As paulistas também vão me querer bem”, apontava o informe publicitário acompanhado da figura de uma menina negra. Em poucas palavras, no anúncio, encontramos diversos códigos que remetem à opressão sofrida por afrodescendentes, principalmente as mulheres: o cabelo crespo associado a um item de limpeza, o corpo negro em uma posição de subserviência e o ser negro resistente a todo tipo de trabalho e exposição. Não por coincidência, definições que acompanhavam a realidade dos negros escravizados aqui no país.

Reforçar essas marcas hoje é bater de frente com feridas ressignificadas. É difícil não encontrar uma mulher com o cabelo naturalmente crespo ou cacheado que não foi alvo dessa dura associação com a palha de aço, principalmente na infância. Ao ver o tweet com o nome do produto, senti o mesmo nó na garganta de quando engolia o choro com uns 5 anos de idade, depois de ouvir isso. Mas, se o grupo privilegiado pouco avançou na desconstrução do racismo que molda suas trajetórias, o peso da voz de quem já sofreu discriminação e de quem se aliou às causas é forte, dando mais equilíbrio e importância para denúncias de racismo como essa.

Usar o cabelo crespo ou cacheado é uma das formas de resistência e manutenção de vínculo com a própria história. A escravidão e exploração não só retiraram cidadãos de seus países, como também os submeteram a um duro processo de embranquecimento. Entre estupros de mulheres negras e facilidades para atrair imigrantes europeus, o mito da democracia racial foi inserido, forçosamente, na história do Brasil, fazendo com que negros rejeitassem seus traços e até não enxergassem sua própria etnia – a fim de serem mais bem tratados.

Por isso, fazer uso do racismo recreativo, ou seja, camuflar o racismo de “piada” para lucrar, mostra que o ataque não é apenas ao tipo de curvatura do cabelo, mas sim ao que ele representa. Não é uma reclamação só pelas dores que vivemos, é uma reivindicação principalmente pelo respeito à nossa cultura e também pela preocupação em relação ao ciclo infindável de hostilização a que pessoas negras são submetidas. Que mensagem você passa para uma criança branca e para uma criança negra através da existência desse produto, por exemplo?

Cansada, mas otimista. É assim que a ativista do movimento negro e redatora publicitária Thamara Pinheiro, de São Paulo, define sua reação à mais um caso de racismo. “Estamos falando de uma real mudança, não tem para onde correr. Há uma movimentação intensa na internet, que vai ecoar internamente na empresa e no mercado como um todo. Quando falamos em reuniões que é essencial a diversidade no quadro de funcionários, acham que estamos pedindo um favor a eles. Se tivessem pessoas pretas ali, esse produto dificilmente iria retornar com esse nome”, aponta Thamara, ex-integrante do programa 20/20 da agência JWT, que tem a meta de ocupar pelo menos 20% de seus cargos estratégicos com negros até o fim do ano.

A publicitária alerta sobre a inserção desses profissionais em todo o processo de criação e produção das campanhas publicitárias. “Não é suficiente colocar apenas um rosto negro na campanha, é preciso criar ações internas de inclusão e essas pessoas precisam ter oportunidades dentro da empresa e serem escutadas”. Como resposta, a população negra e seus aliados deveriam não comprar mais produtos dessa marca, aconselha Thamara.

Na semana passada, a Bombril se pronunciou sobre a Krespinha através sua conta oficial no Twitter. Na manhã do mesmo dia, depois da repercussão negativa, o produto foi retirado da loja virtual da marca. Confira a nota publicada:

Fonte: Claudia.abril.com.br


Tags assigned to this article:
Cabelocampanhamercadopropaganda

Artigos Relacionados

NA MULTIPLAN, UM NOVO ALGORITMO TURBINA A CONEXÃO ENTRE O FÍSICO E O DIGITAL.

A pandemia realçou um desafio que, há tempos, se apresentava aos shopping centers. Com as portas fechadas, os centros de compra não tiveram outra alternativa senão saírem dos seus domínios para, literalmente, se conectarem aos consumidores. […]

47% dos brasileiros preferem gastar com experiências do que em bens materiais, por Valkiria Garré – Kantar

CX é um motor para o crescimento, não apenas uma palavra da moda. No final de 2019, a Kantar apresentou um estudo durante o evento Kantar Talks CX e o publicou em seu site. Ele demonstra que marcas que ofereceram experiência de alta qualidade aos seus clientes cresceram 247% […]

ZÉ DELIVERY BATE RECORDE DE VENDAS.

O Zé Delivery, aplicativo que entrega bebidas geladas na porta da casa dos consumidores em mais de 200 cidades, atingiu um total de vendas recorde dentro da plataforma. Apenas no primeiro semestre deste ano, o app realizou 29 milhões de entregas, superando as 27 milhões feitas em todo o ano de 2020. Esse desempenho fez com que o app […]