O FUTURO FICOU NO PASSADO: ATÉ O “GURU” ESCALADO PARA O SXSW ESTÁ REVENDO SUAS PREVISÕES

Rohit Bhargava é fundador da Non-Obvious Company
Rohit Bhargava é fundador da Non-Obvious Company

O futuro está escrito nas entrelinhas do presente e o publicitário Rohit Bhargava é um dos que se dedica a decifrá-lo – e antevê-lo. Fundador da consultoria de tendências Non-Obvious Company, Bhargava dedicou 15 anos de sua vida ao mercado publicitário, aconselhando grandes agências sobre a movimentação do mundo digital. Essa experiência moldou o seu olhar e a forma como interpreta o que está por vir. Hoje, Rohit lota salas de conferências organizadas por algumas das marcas mais respeitadas do mundo, como World Bank, NASA, Intel, LinkedIn, Under Armour e Disney, dentre outras. O especialista estava de malas prontas para o SXSW 2020, onde apresentaria o painel “10 Non-Obvious Megatrends Changing Our Culture”. Mas, por conta da Covid-19, o painel e o evento tiveram de ser adiados. E sua palestra e algumas projeções ficaram desatualizadas. Afinal, como muitos já disseram, o mundo pós-pandemia será diferente.

Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, o professor de marketing e storytelling (e autor de livros que ficaram no top de best-sellers do jornal The Wall Street Journal) falou sobre o que podemos esperar do futuro, e como o coronavírus mudou algumas de suas tendências. Acompanhe: 

O que é uma megatendência, exatamente?
Há anos escrevo sobre tendências, como tantos outros futuristas. Meu grande diferencial sempre foi traçar um cenário no curto prazo: sobre tendências que poderiam afetar negócios e relações já no ano seguinte. Pela primeira vez em dez anos eu me permiti olhar além e pensar para depois do ano seguinte. Uso a mesma técnica e coloco o mesmo know how ao selecionar cada uma dessas tendências, que são “mega” porque devem ditar o tom por mais tempo que 12 meses.

Mas como você encontra e define essas tendências?
Estou sempre atento, mas olho para o que não é óbvio também. Passo muito tempo avaliando diferentes fontes e tento concentrar todas as notícias em um feed único, que eu monitoro diariamente, com afinco. Acho que o segredo de encontrar qualquer coisa não óbvia, se é que existe um, seria esse, de manter o campo de visão mais amplo. A maioria das pessoas que conheço se limita apenas a acompanhar suas mídias sociais e outros sites e blogs conhecidos.

E quais são as megatendências que estamos vivendo agora que você acha que vale a pena salientar?
Acho que a mais latente talvez seja uma que eu chamo de “fluxo de indústria”. O que eu quero dizer, na verdade, é que as atividades estão cada vez mais borradas. A gente vê, por exemplo, a Red Bull fazendo conteúdo, o banco Capital One agora tem uma cafeteria e tantas outras marcas estão indo além de seu core business. Antes era cada um na sua: uma empresa nascia para criar um produto e ficava apenas naquele setor. Agora, as indústrias estão trabalhando de forma interseccional.

Alguma outra megatendência que precisamos estar atentos?
Precisamos estar atentos à forma de como compramos e vendemos as coisas. Não estou falando aqui sobre meios de pagamentos ou qualquer coisa relativa a isso, mas ao modelo de entrega mesmo. O jeito que você vende qualquer coisa vai mudar. Vai ter que mudar. E já está mudando.

Dadas as circunstâncias inesperadas do que estamos vivendo, acha que seria preciso editar algumas dessas tendências?
Não excluiria nenhuma delas, mas talvez fosse sensível ponderar a velocidade das transformações. Acho que essa pandemia pode ter acelerado algumas das tendências.

Qual, você diria, está sendo apressada?
Bem, restaurantes agora estão sendo obrigados a operar apenas com entregas. Mesmo as casas que não trabalhavam com esse momento se viram obrigadas a se reinventar para caber nessa nova realidade. Isso, porém, já era uma realidade: com a proliferação dos aplicativos de delivery, quantos restaurantes “fantasmas” não operavam sem salão, apenas com a opção de entrega? Já era uma tendência, mas a crise do novo coronavírus colocou mais urgência nesse caso. A mesma coisa acontece com a necessidade de conexão humana.

Isso também é uma tendência?
Sim, e eu a chamo de “human mode”. A ideia é que, mesmo que possamos ter tudo automatizado, às vezes preferimos ter a experiência com outra pessoa de carne e osso. Nesse caso, de novo, o distanciamento social acelerou essa tendência, nos obrigando a usar a tecnologia, quando tudo o que gostaríamos era de engajar em conexão humana.

Isso significa que a necessidade da inteligência emocional segue intacta…
Ah, certamente isso será sempre importante, mas teremos de trabalhar outros ângulos dessa inteligência.

Poderia nos dar um exemplo?
Mesmo quando todas as regras de distanciamento social forem retiradas, acredito que muita gente continue trabalhando remotamente. Parte da nossa inteligência emocional tem a ver com interpretação, que é bastante pautada pela linguagem corporal. Sabemos se alguém está aborrecido por pequenos detalhes, como braços cruzados e coisas semelhantes. Mas como faço para “ler” uma pessoa em home office; nas relações virtuais? Há muito o que se desenvolver nesse sentido.

Os Estados Unidos e alguns países da Europa sempre “exportaram” tecnologias, ideias e modelos de negócio para outros países. Você acha que agora essas regiões estão, também, “importando” essas coisas?
Acho que sim, e acho que essa troca deve acontecer cada vez mais. Não há uma empresa no mundo agora dizendo “ah, está tudo ótimo, podemos continuar assim”. Isso seria o avesso da inovação. Agora, mais do que nunca, precisamos trocar impressões e sugestões para pensar em maneiras criativas de responder velhas perguntas com novas propostas.

O que fazer para melhorar explorar todas as suas tendências e insights?
Ao final de cada capítulo do meu livro “Non-Obvious Megatrends”, eu sempre dou uma sugestão de como aplicar aquelas ideias na prática. Mas há uma dica que eu não coloquei ali e só abordo em palestras e conferências. Numa folha de papel, coloque três colunas – futuro no curto, médio e longo prazos. Depois, com as tendências em mente, escreva o que pode ou pretende fazer para caminhar nesta direção.

É bastante desafiador pensar em qualquer futuro num momento como esse, em que tanta gente se sente perdida…
Pois eu acho que precisamos nos permitir mais tempo. Estamos imersos em tanta coisa que é fácil esquecer que faz “apenas” três ou quatro semanas que estamos vivendo isso. Parece anos, eu sei, mas são semanas. Vamos dar um tempo para gente. Quando cortamos a mão com uma faca, não esperamos que ela amanheça curada já no dia seguinte, né? Da mesma forma, precisamos permitir que nossas aflições se cicatrizem – e isso não acontece do dia para a noite. No final das contas, é importante lembrar que ninguém precisa ter resposta nenhuma agora.

Adaptado da entrevista publicada no NeoFeed em abril/2020.


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